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A Sombra Que Carregamos e o Espelho Que Nunca Mente.

Foto do escritor: Judith Monteiro
Judith Monteiro
15 de dez. de 2025
3 min de leitura

Fonte: Pinterest
Fonte: Pinterest

Há sempre um momento... às vezes discreto como um sussurro, outras violento como uma porta que bate em seco... em que a vida nos empurra contra o espelho.

E não aquele espelho simpático das selfies… não. Nada disso!

É o espelho verdadeiro. O que não tem filtros, nem piedade, nem vontade de nos agradar. O que não nos passa a mão pelas costas nem nos diz o que queremos ouvir.

É o espelho que mostra aquilo que passámos anos a tentar dobrar, esconder, maquilhar ou iluminar com luzes de Natal.

Mostra-nos a nós próprios. Toda a nossa luz… e não só.

Também o que escondemos do mundo: a nossa sombra.

Sim, essa mesma. A que também faz parte de ti.

Essa presença insistente que aparece mesmo quando achamos que já evoluímos imenso, que estamos “numa fase ótima”, que já não caímos nas velhas histórias que contamos a nós mesmos.

Mas a sombra é astuta… quase profissional.

Ela aparece quando estamos cansados, quando o peito parece uma casa em obras, quando sentimos que já não temos mais nada para dar.

É aí que ela surge... silenciosa... e nos lembra que ainda há trabalho por fazer.

É nesses momentos que ela diz, com um sorriso trapaceiro:

“Olá outra vez… estavas à minha espera?”

E claro… fazemos o que sempre fizemos.

Fugimos para o conforto do controlo. Para a exigência da utilidade. Para o milagre ilusório de agradar a todos. Para o ritmo adocicado da ansiedade que nos dá a falsa sensação de estarmos a “fazer algo”.

Como se sobreviver fosse o mesmo que viver.

E assim vamos… enganando-nos dia a dia...

É no espelho: frio, impiedoso, teimosamente honesto, que conseguimos vê-la.

Sentimo-la nos ossos quando, finalmente, temos coragem de olhar de frente.

O espelho mostra aquilo que raramente admitimos por medo do julgamento: a necessidade de sermos admirados.

O desejo visceral de sermos vistos como exemplo.

A fome de reconhecimento que disfarçamos de produtividade.

A fragilidade escondida por baixo do “eu resolvo isto rápido”.

O medo de soltar o controlo, mesmo sabendo que controlar demais é, muitas vezes, a forma mais eficaz de afastar quem mais queremos por perto.

Mostra-nos o que há de mais humano em nós, e que tantas vezes escondemos: a necessidade de sermos amados e reconhecidos.

Mas não se fica por aí!!!!

Mostra também o cansaço acumulado de anos a sermos a rocha e o penedo de todos, enquanto por dentro gritamos em silêncio.

Mostra aquele nó antigo feito de conversas que mudaram a nossa vida, de pessoas que nos tocaram tão fundo que até hoje não sabemos como agradecer.

Mostra a saudade.

A vulnerabilidade.

A necessidade.

A verdade.

Dá-nos o reflexo de quem somos.

E quando olhamos para esse reflexo e tentamos enganar-nos… a sombra aparece outra vez, com o seu ar sarcástico, quase cúmplice.

Porque ela sabe: não a estamos a encarar. Estamos só a dar-lhe voltas. A racionalizar. A fingir que não é connosco.

Mas há uma coisa certa: não há liberdade sem confronto.

Não há coragem sem a vulnerabilidade que tentamos esconder.

Não há autenticidade sem esse mergulho desconfortável na nossa própria escuridão: onde descobrimos que o que mais tememos não é a sombra em si… mas o que ela revela sobre quem somos quando ninguém está a ver.

O espelho não mente.

A sombra não desaparece.

Mas quando paramos de fugir, quando deixamos de nos distrair com a pressa dos dias e das rotinas, quando respiramos fundo e olhamos de verdade… percebemos algo quase poético nesta tragédia íntima: a sombra não está contra nós. Está connosco.

E o espelho não quer castigar-nos. Quer libertar-nos.

Quer lembrar-nos que a luz que tanto procuramos fora sempre esteve cá dentro,  sufocada pelo medo de sermos humanos demais.

Porque há algo que escuto muitas vezes e em que acredito cada vez mais: quanto maior a tua luz, maior a tua sombra.

E no dia em que encaramos a sombra de frente... sem floreados, sem máscaras, sem desculpas... algo nasce, cresce e muda dentro de nós.

Não nos tornamos perfeitos.

Tornamo-nos verdadeiros.

E a verdade sobre ti… essa, sim, é um luxo que poucos têm coragem de vestir.

Atreves-te então a ver-te, assim, por inteiro?

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