Onde Tudo Pára

Por Andreia Leite*

HÁ UM ALTURA EM QUE JÁ NÃO QUEREMOS CORRER.
Em que a pressa se torna ruído, e o ruído uma forma de fuga.
Passamos a vida a perseguir sonhos, metas, estatutos, aceitação, como cães que correm atrás dos carros, porque acreditamos que a velocidade nos vai salvar.
Mas chega um momento em que o corpo cansa e o coração, cansado de tanto bater contra o mundo, pede apenas uma coisa: para parar.
Parar, não por desistência, mas por lucidez.
Parar para ouvir o que o silêncio tem para dizer.
Parar para perceber que o essencial não grita, não exige, não se mostra. O essencial sussurra.
E sussurra apenas quando nos calamos o suficiente para o ouvir.
Vivemos como se houvesse sempre algo a alcançar, um lugar mais alto, uma versão mais perfeita de nós. E, no entanto, talvez o sentido não esteja em alcançar nada. Talvez o sentido esteja no instante em que paramos e reconhecemos que já estamos onde sempre procurámos chegar.
Que o chão onde pisamos é o mesmo chão onde repousa a eternidade.
Que a vida não é corrida, é presença.
Se ficássemos aqui, no agora, sem planos, sem disfarces, sem necessidade de provar nada… talvez percebessemos que a paz nunca esteve fora. Que não é uma conquista, mas um regresso.
Um regresso ao que sempre fomos antes de sermos o que o mundo quis fazer de nós.
Um regresso à respiração calma, ao silêncio limpo, ao simples acto de existir.
Tudo o que nos ensinaram a procurar, o sucesso, o amor, a aceitação é, na verdade, apenas o eco de um desejo mais antigo: pertencer ao instante.
Pertencer a um momento onde não há medo nem comparação, onde o tempo não divide, onde o ser basta.
Talvez isso seja a metáfora de uma humanidade perdida, exausta, sempre a correr atrás do que não pode segurar.
Mas há uma beleza feroz em parar. Em sentar-se no meio do caos e escolher ficar.
Ficar inteiro.
Ficar presente.
Ficar vivo.
Talvez seja isso que significa viver realmente: deitar-se no chão da existência, olhar o céu e perceber que, pela primeira vez, não falta nada.
Nem futuro, nem passado, apenas o agora, suspenso, vasto, absoluto.
O agora onde tudo o que somos cabe.
E nesse instante silencioso, quando o mundo pára por dentro, percebemos, não há carros a perseguir.
Há apenas o coração, finalmente imóvel, a bater no mesmo compasso que o universo.

*ANDREIA LEITE é uma autora emergente de ensaios reflexivos que nos fazem pensar e que escreve como quem escuta o silêncio da alma. As suas palavras emergem de uma sensibilidade ímpar e nascem do encontro entre a emoção e a consciência, entre o sentir e o compreender. Especialista em terapia pela escrita, acredita que cada texto pode ser uma porta para dentro, um espaço onde o leitor se reconhece, se acolhe e, por instantes, se cura.
Através da delicadeza da sua escrita, transforma o simples ato de ler num exercício de presença, convidando-nos a abrandar e a reencontrar significado nas pequenas coisas, nos gestos e nas pausas da vida.
"Chasing Cars" | Snow Patrol







Comentários